O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Rio de Infinitos/ Riu d'anfenitos em Matosinhos

“Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
Do rio de palavras selvagens preso em ti
Das melodias vadias que escreves ao luar,
Diz ao desassossego que ateias em mim
O poema que quero entender
E quando a minha pele começar a enrubescer
Diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer”
E Teresa Almeida Subtil não vai deixar nada por dizer. Na próxima sexta-feira, dia 17, pelas 21 horas, no Salão Nobre do Orfeão de Matosinhos vai acontecer magia transformada em palavras. Terei o enorme prazer e a grande responsabilidade de apresentar o mais recente livro desta Escritora Mirandesa, Rio de Infinitos (Riu D’Anfenitos).
Não faltem. Vamos deixar que este rio inunde os nossos sentidos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A verdura do olhar / La berdura de mirar

A verdura do olhar 

É em águas límpidas que me jogo
E da vida colho bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Língua sem freio, macia, desencravada.

Só te ama quem por ti se lança sem decoro.
Quem se faz verbo e se conjuga no infinito.
Quem se magoa e se desnuda clara e bravia.
Te diz princípio, aventura. Nunca servil.

Ternura desfiada em flauta pastoril.
Cor de giesta e urze. Fala mirandesa. Festiva.
Âncora e eternidade.
Ribeira que canta a verdura do olhar,
Debruada de candura.
 

 La berdura de l mirar

Ye an augas claras que me jogo
I la bida s´ antende bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Lhéngua sien trabon, macie, zancrabada.

Solo t'ama quien por ti se lhança sien bargonha.
Quien se fai berbo i se cunjuga ne l'anfenito.
Quien se pica i se znuda clara i brabie.
Te diç percípio, abintura. Nunca serbil.
Buntade de bestir saia i corpete.

Soudade zlida an fraita pastoril.
Quelor de scoba i urze. Dança Mirandesa. Festiba.
Áncora i eiternidade.
Ribeira que canta la berdura de l mirar,
Debruada de candura. 


Teresa Almeida Subtil




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

L sonido de la senara / Melodia da seara


Nota de redação: A Seara Nova publica, nesta edição, um poema escrito em língua mirandesa, traduzido para português pela autora. Num contexto de cada vez mais intensa massificação cultural, pretende-se assinalar o mérito do estudo e da prática da língua e cultura mirandesas, como instrumento de resistência a esteriótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do país.


 L sonido de la senara


De l berano la selombra, la boubice, la seduçon.
Tiempo moço i manos paridas de palabras ambergonhadas.
Manos q'ampálpan las cinzas i l bentre de la casa.
I la binha zértica a reclamar ls mostos i l rebolhiço.

Bazies, las tulhas son arcas de decoraçon.
L carino geme ne l sobrado i mius passos
Son campanas que dróban ne ls abraços sien tornar.
Perros i ls gatos (i las abes de la nuite) son bistas
I l´airico, ambencible, cubre la soudade que bózia.

De l rescaldo guardo l'oulor, l carino
I la colheita. L sonido de la senara. I la rebuolta.
I ne l'afago de la poesie partelhada cumo sustento
çcubro agora l carreiron de caminos outros.
Las eiras seran siempre adonde (i cumo) quejires.

Melodia da seara

Do estio a sombra, o desvario, a sedução.
Tempo moço e mãos paridas de palavras a recato.
Mãos que apalpam as cinzas e o ventre da casa.
E a vinha desértica a reclamar os mostos e o reboliço.

Vazias, as tulhas são arcas de decoração.
O carinho geme no sobrado e meus passos
São sinos que dobram nos abraços sem regresso.
Cães e os gatos (e as aves noturnas) são paisagem.
E a brisa, indomável, fecunda a saudade que grita.

Do rescaldo guardo o cheiro, o afago
E a colheita. A melodia da seara. E a revolta.
E no afago da poesia partilhada como alimento.
Desvendo agora o trilho de caminhos outros.
A eira será sempre onde (e como) quiseres.

Maria Teresa Almeida

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sei teus sinais / Sei tues seinhas

Sei teus sinais
Sei teus sinais


Cada socalco tem sua própria chama
E há lugares onde lugar não conheço e teimo.
Experimento a subida e desço em descaminho.
Em mistérios e interrogações flutuo.
E olho ao longe um lugar.
Como se tivesse cor e cheiro.
Ainda que volátil. Mais espírito que peso.

E escrevo a desnorte. E assim me envolvo.
Laços de seda e de murmúrios. Palavras-asas
Que perpassam e nos enleiam.
Sei teus sinais
Ponto de apoio – infinito voo.



Sei tues seinhas

Cada recalço ten sue própia chama
I hai lhugares adonde lhugar nun conheço i anteimo.
Spormento la chubida i abaixo an çcamino.
An mistérios i anterrogaçones sbolácio.
I uolho al loinge un lhugar.
Cumo se tubisse quelor i oulor.
Inda que dezipado. Mais sprito que peso.

I scribo sien tino. I assi m’ arrolho.
Lhaços de seda i de marmúrios. Palabras-ailas
Atrabéssan i mos amarfanhan.

Sei tues seinhas
Stribo-me – anfenito bolo.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Caminhos de humanidade


Não sei se os passos estão desenhados no firmamento
Involuntários serão e potenciadores de tempestades…
Há raios entre as nuvens, poderosas energias
que derrubam portais de esperança
e estilhaçam lampiões de imaginação.

E o que parecia amor consentido pode virar medo,
espada de Demóstenes na cabeça do mais prevenido.
E o que parecia amigo pode ser perigo, argúcia,
maldade, porque não dizê-lo? Sim, machismo puro,
larvar descriminação. Poema escuridão.

Num virar de página, camuflado de cumplicidade,
circula a ideologia e a poesia eivada de promiscuidade.
Salve-se a grandeza da igualdade. E quando ergueres a espada,
não chafurdes na lama. Dá primazia ao mundo que reclamas.
Ao direito e à amizade. Que teus passos te elevem
e desbravem caminhos de humanidade.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 22 de outubro de 2017

Olhos-seara



Olhos-seara quebrados em secura
Mãos de solidão e claridade
Odor do feno. Sensualidade
À solta na colina
Fogoso Verão
Que se prolonga
No sopro

Outono
Nas palavras
Que nos despem


Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Breve o voo


 Breve o voo. Infinito o amor.
E tão íntima a poesia que me deixaste.
E as flores e os perfumes. E a liberdade.

As palavras que me deste e as fontes cristalinas
Glorificam-te. E do teu nome brotam as mais doces melodias
E as amargas também.
Porque neste verão partiste, minha mãe.

Percebo-te em mim, tão leve como o beijo
E o sentimento da manhã. E o teu passo é meu
E cada momento te pertence. Olhar que elevo.
Azul intenso. Tão breve!

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Setembro me trouxe

Setembro me trouxe

A palavra é, agora, um sopro de alma
A declinar numa folha de Setembro,
por vezes calma, outras ventania.
É esta saudade entre a lágrima e a alegria
vertida num rio que me corre dentro.

É o canto da cotovia na ponta da oliveira.
Que sem melodia, nem o sumo da ideia
me escorregaria na letra, nem o fio do verso
seria de origem duriense. Setembro me trouxe
e doce é a uva e a vindima que na cuba floresce.

Serei sempre laranja do pomar
que almeja o sol na pele. E ave de alto sonhar.
E voo que me cresce. E a sede de ti.

É meu passo.
Festa da vida que em mim se ergue.
Setembro me trouxe.


 Poesia e pintura de 
Teresa Almeida Subtil

domingo, 17 de setembro de 2017

Assomadeiros Resbalinos


Ardo ne l deseio de bolar,
inda que saba q´hai assomadeiros resbalinos,
altas faias an que me puoda prender,
i nuobos i retrocidos caminos que l suonho precura
i anque l miu pensar
quede colgado i tembre mirando l peligro,
sien la palabra q´amente
la berdade i l resfuolgo de l miu sentir. 

Tengo ganas de bolar.
Esta paixon ye cumo un riu de querer fondo,
custoso de secar. Chama-se lhéngua mirandesa.
Solo s’astrebe quando se sinte la bertige de la caída,
mas ye ende que l bolo lhieba gusto i plenitude.

Talbeç seia un bolo maternal, buído na calor
i ne ls beisos de la fala
quando inda nun se sabe falar. Cuido you
que quien me dou de mamar, dou-me, tamien,
este deseio, sien frenos, de sbolaciar.

Fago l risco nas alturas,
porcuro fuorça nas alas que la curjidade me dou.
Nun quiero quedar a meicamino,
quiero antrar ne ls sonidos i na guapura deste falar.

La felcidade stá an anteimar.

Mirantes escorregadios

Ardo no desejo de voar,
ainda que saiba que há mirantes escorregadios,
altos penhascos em que possa encalhar,
e até novos e retorcidos caminhos que o sonho procura
e onde o meu pensamento
fica suspenso e treme ao olhar o precipício
sem a palavra que diga
a verdade e o ímpeto do meu sentir.

Tenho fome de voar
por dentro da tua simplicidade e beleza.
Esta paixão é como um rio de querer profundo,
difícil de secar. Chama-se língua mirandesa.
Só se ousa quando se sente a vertigem da queda,
mas é assim que o voo ganha gozo e plenitude.

Talvez seja um voo de colo, bebido no calor
e nos beijos da fala
quando ainda não se sabe falar.
Quem me deu de mamar, deu-me, também,
este desejo, sem freios, de esvoaçar.

Traço o risco nas alturas,
procuro força nas asas que a audácia me deu.
Não quero ficar a meio caminho,
quero entrar na sonoridade e na beleza deste falar.
A felicidade está em ousar.

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)


Dia da Língua mirandesa.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Vou levar-te à festa!

Lançamento do Livro “ Rio de Infinitos/Riu D’Anfinitos”
Sáb 09/09 - 14:30 (na sede da Junta de Freguesia).
Comissão de Festas da Nossa Senhora das Graças - LAGOAÇA


És o meu vestido novo e eu quero a alegria que me amanhece e me leva na palavra degustada. Cada dia é um vestido a estrear e traz no ventre um novo paladar. Trago comigo a vontade de renascer nos passos em que voava, nos beijos que me cresceram. Sem desejo a vida não é nada. E eu quero voar sobre o cheiro das pétalas da minha aldeia. Sentir e ter corpo de banda filarmónica, a música que fazia e faz das ruas da minha aldeia as mais belas do mundo. "Chegou a música!" E todos corriam e os olhos tinham a magia e a alegria de viver num vestido a estrear. Um vestido sonhado o ano inteiro. Ainda que fosse uma blusa apenas, tinha as cores em que a pintáramos. E cada passo entrava na orquestra a um ritmo em que se jogavam todas as notas de um livro: o nosso. “Sem música nem a vida faria sentido” (Friedrich Nietzsche).
Vamos! Este livro é um pássaro a sorver o orvalho poético de cada amanhecer e, como dizia Alexandre O’Neil, que as palavras nos beijem como se tivessem boca.
Teresa Almeida Subtil

Gravada a ouro esta apresentação de Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos. O reencontro, os afetos ... a minha terra - Lagoaça.







segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Vão de infinitos / Preça d'anfenitos

Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me entronco na árvore onde me fiz.

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada, que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.

Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.



Preça d´anfenitos

Ye la baranda de grades de la quelor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m´astribo i m´antronco n´arble adonde me fiç.

Ye l toque na parreira de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, nun cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
i d'outro paíç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l rebolhiço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.

Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa dun tiempo a çcubrir.

In "Rio de Infinitos/Riu d'anfenitos" de Teresa Almeida Subtil





quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Malas à porta


"Professor que é professor, em Setembro tem as malas à porta." Há-de correr bem, dizia ela - otimista por natureza. E eu fiquei a pensar que já tive as malas à porta - muitas vezes (e havia muita adrenalina em tudo isso) mas, se isso me acontecesse depois de constituir família... deixava o coração para trás ...levava-o comigo? Pensamento matinal demasiado arrepiante.
Um dia pus uma cruz no distrito do Porto, a título definitivo, mas depressa me trouxeram de volta à origem. Hoje penso que a opção foi acertada. Fez parte de um percurso encantador. E ao Porto vou sempre que posso. A cidade é linda de morrer porque também é minha. Vou cirandando...

Teresa Subtil

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Festival Intercéltico. Convite

Foto de FESTIVAL INTERCELTICO DE SENDIM.

Pino do verão, da música e da proa da língua.
Sangue celta a correr pelos dias, pelas noites e pelas melodias.
É no arrepio da dança que vivemos e fazemos a festa.
E os instrumentos levam as palavras a brilhar e a cirandar.
Corpo e alma. Pois quem não bailou que baile
no requebro do verbo, na alegria do povo que somos,
na voz que geme, na tristeza e no verso que afeiçoa;
no perfume silvestre que sublima. É a cultura que se espraia
no palco e no terreiro. Apesar do grito. 
É o hino à vida que se alcantila.
É sair voando ao intercéltico, festival de estio, festival de proa.


Ye l cherume de l berano, de la música i de la proua de la lhéngua.
Sangre celta a correr puls dies, pulas nuites i pulas cantigas.
Ye ne l'arrepelo de la dança que bibimos i fazemos la fiesta.
I ls anstrumientos lhieban las palabras a relhuzir i a çarandar.
Cuorpo i alma. Pus quien nun beilou que beile
na droba de l berbo, na alegrie de l pobo que somos,
na boç que geme,  na tristeza i ne l berso que mos gusta;
no prefume silbestre que chube. Ye la cultura que se spabila
ne l tablado i ne l terreiro. Anque l bózio.
Ye l'hino a la bida que s' alhebanta.
Ye salir bolando al antercéltico, festibal de l tiempo e de lomiada.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Mãe


Será que ouviste o meu palpitar?

E a minha mão acariciar a tua, 
será que sentiste?
E os últimos beijos
 no teu rosto ausente,
percebeste-os mãe?

Na hora dura e fria, 
deslizei num rio de paz,
firme leito de afetos.
E no teu peito me deitei 
pela última vez.

Os teus olhos, minha mãe, 
haviam partido,
mas os meus adoravam-te na luz que me deixaste.
Luz que, na partida, quis dar-te.
E o sossego da tua mão na minha.
Disse-te tudo, como sempre.

Estou aqui, mãe, como te dizia …  

Acariciei contigo os rostos que te queriam.
E te querem.
Passaste e viverás no amor que semeaste.

Mãe, eu vi as arribas a arder
quando à terra desceste.

Teresa Almeida Subtil

Foto de Carla Subtil Rodrigues.

domingo, 23 de julho de 2017

Poesia rebelde


 (Pintura de Sara Mata) 

Sob teu olhar eu me vestiria de guiupura.
Papoila esvoaçante.
No teu chapéu faria ninho e céu,
e ideias sem rota.
Não gosto de destinos. Sonho teu hino e galhardia.
E sobre teu riso … poesia rebelde.
Luar fogoso, cheiro a savana e cacau puro.

Erguida à tua altura, navego.
Errante. Acrescento som ao teu riso
como se visse o mundo alvorecer,
e nas palavras, moídas, clareiras de liberdade,
e asas floridas num olhar que apenas adivinho.
Transbordante.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 15 de julho de 2017

Apresentação de Rio de Infinitos - Riu d'Anfenitos em Miranda do Douro




Apelidada de filha de Torga por Conceição Lima, a sua  geografia é de amor (Amadeu Ferreira), a poesia seu traje de madrugar,  (Alfredo Cameirão) e a sua cor é a brisa da vida (Domingos Raposo). 





Foto de Anabela Torrao.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Despe-me




Despe-me de dores e incertezas,
vulcões de ternura, trilhos de utopia,
desejos frementes, pássaros multi-cores,
ânsia, fome de viver. Mostra o dia-a-dia
a alvorecer na palavra. O riso e o amor.
Minha página alvoroçada, sons da terra,
fraga esfiapada, urtiga e flor aberta.

Nasce-me de novo, rebelde,
filho segundo de geração espontânea,
teia que me prende e desvenda.
Aquieta-me. E embora cálida 
e finita seja a tarde,
despe-me, hoje, num fio de aurora.

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hortênsia azul



Esta foi a noite de todos os azuis,
pingas copiosas, labaredas e céus.
Arrasto de cinzas. Beijos à janela.

E esta mistura prazer-dor.
não é insanidade, é arrepio inevitável,
afago e fome.

Dizem as hortênsias
do tempo a suavidade, do verso o perfume,
da casa a graça, o olhar e a luz.
Do muro a liberdade.

E do desejo de águas novas
que perpassa por elas e por nós,
há, ainda, beijos que se apagam
e janelas que ardem.


Teresa Almeida Subtil