O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Poesia de baloiço

COMEMORAÇÕES DO DIA MUNDIAL DA ÁRVORE
E DIA MUNDIAL DA POESIA




A melodia da passarada é sempre nova.
Já havia uma brancura a brilhar junto à árvore,
parecia espreitar as brincadeiras.
Era o primeiro malmequer!
Vi-o e amei-o ao saltar
e não me saiu do pensamento.

Desenhei-o num papel e escrevi-lhe segredos.
Pintei-o às escondidas, entre as corridas
que não queria perder. Levei-o para casa.
Minha avó espreitou, gostou e perguntou:
é para mim, meu amor? E assim, esta flor,
tão singela e bravia, tinha as cores do dia
e por dentro a beleza do sol e do amor.

De repente tive outra ideia:
e se eu pintasse outro malmequer para o meu avô?
E para os meus amigos?’ Ah! meus queridos,
naquela folha branca e limpa parecia
rebentar a verdadeira Primavera. Festiva.
O sol acertou-lhe em cheio e o tom do meio
mostra agora o riso dos meninos no recreio.

E eu a correr como se voasse e criança fosse.
Sou avó. Já fui menina, professora,
mas apetece-me saltar e dançar como antes.
E ser primavera em cada gargalhada.
E flor de amendoeira branca e rosada
que a pomba trouxe no bico para entrar na roda.

Este esplendor que a natureza tece. Ah! como me apetece!
E sinto-me coroada de pétalas, cabelos soltos e perfumados.
Que o vento é apenas brisa, melodia e encantamento.
Todos os sentidos são ritmo no corpo de uma criança.
Que seria de tanta beleza sem os sons da natureza?
Onde guardaremos o silêncio? E a alegria? E a dança?

Vamos plantar árvores, aquelas que enfeitam o Natal
e se enchem de bolas vermelhas no rigor do Inverno,
e nogueiras para termos nozes ao serão, à lareira.
E durante todo o ano serão abrigo e encanto da pardalada.

E os patos lá no lago a deslizarem sem mácula,
como se o mundo lhes pertencesse. E pertence.
Será que espreitam as águas profundas,
a calmaria e o mundo de cada ser que as habita?
Diria que a felicidade é esta primavera a acontecer,
hoje e aqui, se a soubermos sentir.

E eu não sou eu
se não for onda roubada ao mar alto a desfalecer
e a beijar cada nesga de praia à beira-rio plantada.
E se não for voo de ave que o rio quer beber.

A poesia é vida, é tudo e nada, é o olhar que alcanças,
o sonho em que baloiças e os laços em que te soltas.
E ao entardecer pinta de novo, que a primavera continua
em todo o lado. Levanta o olhar e faz de conta,
sente a festa no céu, morna e avermelhada,
como se o dia fosse arder em beijos de despedida.
E a lua, feiticeira, começa a desenhar-se
e fica à tua beira como se te embalasse.



Teresa Almeida Subtil
20.03.2017

Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro

domingo, 12 de março de 2017

Flor d´alva

11.03.2017 Município de Miranda Douro

                                
Deixem-nos em paz! disseste-me um dia.
Hoje não quero ver-te.
Fiquei sem retorno,
vestida de noite dentro do dia.
Perdida na dor que nos destroçava,
deixei-me morrer ali mesmo,
naquela passada.

Visto-me hoje de flor d´alva,
saída assim, despida, do corpo de minha mãe,
despida ela também, de confusões e artifícios,
vestida apenas de amor profundo.
Mulher foi meu destino e a poesia tempero,
meu mundo, sempre de partida.

É tempo de camélias no pino do Inverno,
de ar frio, arrepio de força e cor.
poema, vigor na luta
até que não faça sentido
falar de igualdade de género.

A rajada pode destruir
ou fazer eclodir a força de natureza-mulher,
a que se deslumbra e não se deixa vencer
a que semeia alertas para que o vento
não derrube árvores feridas.
E cada pétala abrirá e murchará a seu tempo
e cada saraivada será alento para nova caminhada.

Visto-me hoje de flor d´alva.
E de fogo. E de amor. Sempre.
Em ti, mulher, raia a alvorada.

Teresa Almeida Subtil

Ao violino Luis Velho


sábado, 4 de março de 2017

Minha fantasia


De flor matutina a rosa bravia,
de feixe à cabeça em qualquer esquina.
Terna fantasia. És ainda raio, recorte de lua,
perfume jasmim, trança de menina.
És verso do pomar com sabor a lima.
Janela indiscreta, incêndio do olhar.
E minha pele é tua sina.
E do horizonte a única linha é abraço inteiro,
canto marinheiro no fio do dia.
A palavra é tua. E de quem te ama.
E se encanto houvera em hora tardia,
da terra sairia poesia em chama.
Teresa Subtil

Miu delareio

De frol d´alba a rosa brabie,
de feixe a la cabeça an qualquiera squinica.
Ameroso delareio. Sós inda centeilha, cachico de lhuna,
perfume jasmin, trança de nina.
Sós berso de l maçanal cun sabor a lhima.
Jinela andiscreta, lhume de l mirar
La mie piel ye la tue sina.
I de l'hourizonte ua só lhinha ye abraço anteiro,
 canto marineiro ne l filo de l die.
La palabra ye tue. I de quien t'ama.
I se ancanto houbira an hora tardie,

de la tierra salirie, poesie an chama.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Manhã ribeirinha 

Quero o vento que te passeia. Só meu.
E o aroma que nos enlaça. O espaço e o tempo.
E a pele do dia amaciada na clareira que a chuva abriu.

Quero-te assim. Desassossego na manhã ribeirinha,
pensamento e ardor do sussurro que se avizinha.
E o beijo meu íntimo labirinto.

Pianinho quero o som que desfolha os sentidos
e a árvore cativa
que sombreia o detalhe e a intensidade.

E a manhã é apenas esta nota, este breve sentimento,
que acende a melodia e o borbulhar da sede.

Teresa Almeida Subtil



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

L mais guapo cantar


Pinta-me hoije culs uolhos que tenies,
çliza l sol nas bordas de l miu cuorpo,
dá-me l gusto de la tua boca na mie,
guarda l tono na fóia de l miu rostro
i canta-me baixico l mais guapo cantar.

Pinta-me hoije de poesie zlida,
fai-me hourizonte, lhinha perdida,
i na binha que plantemos al pie de l mar
derrama tou prazer, ben cumo benies,
ne l tiempo de soletrar la palabra florida,
fuolha branca i lhisa, chelubrina de l maçanal.

Pinta-me hoije i fai-me diusa,
só cielo, só airico. Amor miu.
Ben pintar quelores que l'ourora deixou
an l'ourbalheira de ls tous beisos ne ls mius.

Pinta-me hoije cumo Ban Gogh pintou 
l'azul que nun smoreciu.



O mais belo cantar

Pinta-me hoje com os olhos que tinhas,
desliza o sol nos contornos do meu corpo,
dá-me o gosto da tua boca na minha,
acentua o tom na cova do meu rosto
e sussurra-me o mais belo cantar.

Pinta-me hoje de poesia delida,
faz-me horizonte, linha perdida,
e na vinha que plantámos ao pé do mar,
esbanja teu gozo, vem como vinhas,
no tempo de soletrar a palavra florida,
folha branca e lisa, cotovia do pomar

Pinta-me hoje e faz-me deusa,
apenas céu, apenas brisa. Amor meu.
Vem pintar nuances que a aurora deixou
no orvalho dos teus beijos nos meus.

Pinta-me hoje como Van Gogh pintou
o azul que não esmoreceu.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 5 de fevereiro de 2017

https://www.youtube.com/results?search_query=chuva+de+jorge+fernando



Passas de saudade

Cheguei derrotada, passa em pão enrugada,
vim, fora de horas, mas de propósito para te dizer
que a chuva me bate no peito clássica e bravia
melodia tardia que a saudade permite acontecer.

É sempre aguda e fria a fresta que o livro
abre de memória e a nossa história é de cumplicidade.
A ausência é trovão que vem de longe e se derrete.
No pão a passa acrescenta o calor da amizade
e a manteiga que sabor! Essa nunca vem tarde.

A chuva lava-me o rosto, e o café que aroma!
deixo a torneira correr, chávena cheia, e o mel é a tua palavra
sussurrada na minha, gosto e carícia que apetece.

As passas são baladas de amigo na minha boca,
a mente enleia o tempo e o vento sopra molhado.
Vou pelo monte como a Jane Eyre da minha adolescência,
sem óculos, cabelos esvoaçantes a chispar clarões.
com ela perdi o medo e a trovoada é som que me passeia.

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De passagem

Se o caminho é traço
à altura da emoção,
ressurge, inesperadamente,
e qualquer passo
pode ser emergente humildade do olhar.
Só aí é que lhe medimos a intensidade
e percebemos a incisão grave num desenho
por acabar. E a humidade
é sentimento que assalta a viagem
e vai escrevendo percursos de imaginação.
Estamos de passagem
e nem sempre temos coragem
nem arte para pintar a festa
onde baila o coração.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O riso da tarde

Amo livre o pensamento 
em cada ciclo de ave,
em cada asa perdida,
em cada voo que não cabe
num trilho que me é escasso,
enquanto infinito brilha.

É por estes encantos que o rio serpenteia
e deixa perene o rasto e a partida.

E eu beijo a pedra que assim me fala
e a pele que renasce nas mãos do tempo.

Beijo a palavra que assim te diz,
beijo a geada, o sol, o vento

e o riso da tarde que hoje me quis.       

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Al tou lhume

Nun era l reissenhor de Florbela,
mas toda la nuite cantou,
melodie nun sustenida
que l biolino tocou.
Soában uocas las palabras,
geladas i sien cherume, 
talbeç só l sonido tenga altura
de me poner al tou lhume
an terrena partitura.


Teresa Subtil

A teu lado
Não era o rouxinol de Florbela,
mas toda a noite cantou,
melodia não traduzida,
que o violino tocou.
Soavam ocas as palavras,
frias e sem significado,
talvez só o som tenha altura
de me colocar a teu lado
em terrena partitura.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Se eu pudesse!

Foto de Fernanda Chumbo.


Ah! se eu pudesse abandonar o castelo
construir defesas a meu jeito, saltar as ameias
do teu peito, libertar medos e anseios,
chorar entre a multidão tudo o que tenho direito,
descer a rua, erguida, de lampião na mão!

Se eu pudesse soltar pardais na escuridão,
deixar sem guarida a ambição desmedida,
fazer a fogueira na praça, cumprir o ritual
do solstício de Inverno, esconjurar o mal
e mandar para o inferno todo o ato desumano!

Se eu pudesse fazer da noite de fim de ano
um cântico de renovação que iluminasse
a madrugada gelada e se no grito que erguesse
arrancasse de raiz o que a razão não adormece!

Ah! se eu pudesse!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um braçado de rosas

Para ti, Ana Maria, um braçado de rosas.
Toquei-lhe ao de leve, numa carícia de fim de tarde, como se a lua se desenhasse na janela, mesmo atrás da brancura das ondas que a embelezavam. Nem sei se me pressentiu, ela que era pluma e alegria esfuziante, jeito brincalhão e modo esvoaçante de caminhar. Lembrou-me outra que me prendeu o olhar na caixa do supermercado com um adeus de “A insustentável leveza do ser”. Toda enrugada, mas de uma elegância a toda a prova (oitenta e tais). À saída, reparei que conduzia um carro espetacular, sozinha. Tocou-me esse momento!
Ana Maria levava sempre um pau, mas parecia que era para fazer desenhos pelo ar que respirava. Às vezes levava um beijo de gratidão só pela forma como me surpreendia. Bailava na expressão. “Todos os dias bato à porta da sua mãe para ver se está bem”, dizia-me. Já na aldeia, a vizinha Céu, batia e entrava. Isto de querer bem passa muito pelas atitudes. Ana Maria parecia sentir sempre o meu adeus de despedida. Era irresistível da minha parte, assim como a troca dos sorrisos. Às vezes ajudava-me com a língua mirandesa. Maravilhosas partilhas! Era amiga.
Há dias já não chegava à garrafa de água que tinha tão perto! E foi-se despedindo, tão breve como uma rosa no Inverno. Chegou ao fim de 2016.
No Lar da Senhora do Monte sentia-se bem, como se a fonte de vida estivesse ali ao pé, onde o Fernando cultiva as mais belas rosas das redondezas. Um utente que se fez jardineiro talvez por vocação ou destino poético. Conheci-o sempre solícito, prestável. Às vezes roubo-lho uma rosa e mistura-a com as minhas para oferecer aos amigos virtuais. Na verdade, bastava uma para mudar a face da casa, mas há quem muito lhe queira.
 Para ti, querida Ana Maria, escrevo e sinto nas palavras o perfume das rosas do Lar da Senhora do Monte.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Asas Brancas


Por herança umas asas brancas,
asas que um poeta me deu.

Recordo que acreditava no voo,
mesmo não sabendo do poeta nem da herança.
Recordo-me de voar as primeiras escadas
que não sabia descer. Morava alto.
Qualquer dificuldade me traz ainda este voo
sem sobressalto. “Era tudo tão verdade!”
Confundia o sonho com a realidade,
mas sabia que tinha asas  e podia
voar as escarpas de um reino que não cabia em mim.

Em Aleppo, pássaros, tão verdes como eu fui,
acreditavam e sonhavam que a terra
era abrigo e poderia ser um poema de amor.
Mas afinal os passos são fontes de lágrimas
derramadas, sem caminho.
e só pedem ao mundo a devida proteção,
um pouco de carinho..

Quando falamos em bocas sem pão,
revolta-se o estômago, vomitam-se vitupérios
contra os que lhes roubam o próprio chão.
Até a alegria perdeu a razão,
o azul, mesmo no céu, tem rasgões vermelhos
e o chão, meu Deus, só tem pés a correr
sem saberem para onde vão.

A visão e o comando estão armados,
o diálogo é uma bala qualquer
e as luzes da cidade são lágrimas
a cair de árvores atrecidas.

Que o Inverno traga asas brancas
e a paz seja um lírio a rebentar
num sonho destroçado.
Que as palavras de revolta
sejam dilúvio a sarar feridas
e os gritos do planeta ecoem no firmamento.
Que o Natal seja nascimento e verdade
no coração da humanidade.

Teresa Subtil​
(Recordando Almeida Garrett)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Quando te li

Quando te li
já tinhas passado por muitos poemas
E nem sabia se o que lia me pertencia
Mas a ilusão preenche vazios e perdas
E há azuis  intensos nos versos que te fiz

Quando te li
Trazias lábios de surpresa e mãos de pressa.
Traços leves e penas de ave inquieta.
Olhar de seda e mar de cetim
Foi por ti que no verso me deitei
E senti o toque primeiro, a melodia

O universo nas asas da poesia 

Teresa Subtil

sábado, 3 de dezembro de 2016

Deixemos fluir

http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/12/deixemos-fluir.html?spref=fb

DEIXEMOS FLUIR

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ontem, dia da Independência, olho, mais atentamente, a espada de El Cid, pendurada, carinhosamente, junto à porta de entrada. Um amigo trouxe-a um dia. Veio de longe, de propósito, e nem sequer se demorou. O tempo comia-lhe os passos, mas quis deixar um pouco de alma. É a espada do herói a que é afeito, de Burgos, a sua terra. Esta ideia de pertença a todo o mundo faz todo o sentido, através dos valores, da cultura e de algo primordial: a amizade. Chega a ser surreal uma espada ser símbolo de amizade. Mas tu ficaste na lâmina, no punho e na arte de quem ama a luta para fazer a paz – junto à porta de entrada ou de saída (talvez apenas de passagem- como a vida). Vieste e ficaste numa história de largos sorrisos, de cumplicidades e de lutas por um mundo melhor. Um gesto que traz à memória o tempo em que Miranda do Douro e Aranda de Duero viviam o auge da geminação e construíam pontes de cultura e desenvolvimento. Quantas vezes saltámos um rio que nos une, um salto num espaço que sempre foi nosso, apesar das fronteiras, apesar das hegemonias, apesar dos assaltos, apesar dos heróis nascidos nos altares. Também a língua nos foi berço e, se atentarmos que o mirandês é hoje entendido por 800 milhões de almas, como defendem alguns estudos iniciados por Amadeu Ferreira, percebemos a riqueza desta abrangência cultural.

Não te vejo, mas estás porque sabes estar. Ser amigo é dar a espada de despedaçar medos, sejam de que ordem forem. E se a fera vier pela calada da noite saberemos dobrar-lhe a sagacidade do olhar, porque a selva é em qualquer momento e em qualquer lugar (poderá ser esta uma das mensagens que quiseste deixar). Sempre perscrutei um potencial mundo num objeto singular, como um livro que nos viaja . E se viemos dos confins da desordem, como conheceremos os caminhos infinitos que nos habitam? Cada vez sabemos menos, é verdade, mas uma espada pode ser um pequeno nada que, à entrada da porta, nos aporta a imensidão do que não sabemos, mas do que sentimos. E o medo sai, assim, pela porta e pela palavra. Deixemos fluir! dizia Jorge Nuno, outro amigo que, por aqui (Bird Magazine), vai semeando pérolas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016



Que trago?

… e o copo estava ali…
para trás as castanhas, a brasa,
o licor a repousar na adega 
a data, a hora, a etiqueta, a amora silvestre  …
até a laranja do pomar se remeteu
ao silêncio do inverno nas arribas.

Como disseste  em verso etílico e breve :
 deixa o açúcar
e percebe como arde um cálice de aguardente!
É verdade. Basta um trago
para silenciar a estridência das castanhas
e saborear as linhas de
um poema secreto.

E o copo é o corpo e a vida a passar
e o sabor vai tão depressa
que o corpo e a alma se deixam
plasmar de plenitude.

A beleza do copo é sentimental,
a antiguidade do balcão e a garrafa do canto
têm igual valor

e há palavras que me vestiste  
que se recusam a envelhecer.

Teresa Subtil


domingo, 6 de novembro de 2016

Reflexo


Na mesma sede caminhávamos:
o passo na cadência do desejo,
o corpo nervoso balançado
nos contornos do abraço
e a noite a fazer-se alvorada do olhar.
Era fremente o desejo de ficar.
Havia missangas a abrir caminhos
e no peito botões a saltar.
Era a poesia a acontecer
e a febre de a escrever na pele,
de a dizer no beijo.
Éramos reflexo de fonte,
sede a crescer na noite.

Teresa Almeida Subtil

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Linha é Tua


A linha do Tua, que conheci ligada à minha paixão, surpreendeu-me como quando te vi pela primeira vez. Tanto não. A beleza do percurso era demasiado atrativa, não tanto como o poder dos teus olhos. O corpo do rio era ousado, atlético, não tanto como o teu quando me colei a ele para a vida toda. Mas colou-se aos meus encantos aquele percurso sinuoso que não voltei a ver. Também não conhecia Bragança nem sabia que albergava um mundo de palpitações …

Teresa Subtil

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Degustar poesia

(praia de Matosinhos)


Corpo de rio, fome de mar 
Beijo moído de saudade
Verão despido no cume do amor
Cabelos esvoaçantes, brisa suave 
Seda tecida de abraço ausente 
Vontade quente derramada
na praia que só se sente

Se te despedes a frio de calendário
não me mostres caminhos escarlates
nem me devolvas ternuras reminiscentes

Espreitam-me melodias de outono,
sabores melancólicos de fim de dia, 
deambulações de invicta cidade,
sabores poéticos da noite na cave,
prazeres de lua concupiscente,
fazendo sua a rua da gente


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

La tue risa



Ambenteste l nabio, l puorto i l lhunar
i ne l'hourizonte planteste bioletas
na araige alguas lhetras
i la tue risa
era la coraige de l die a aportar
ne l beiral bazio de la mie puorta